Mostrando postagens com marcador santana do livramento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador santana do livramento. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Solidão é um estado de espírito (e eu quase não sei o que é)
Ainda é verão, mas a chuva trouxe um reconfortante friozinho para a última noite de fevereiro aqui na Fronteira Brasil-Uruguay. Isto faz minhas boas recordações invernais serem acordadas... Chamo meu fiel escudeiro (taxista) e vou até o La Leña da BR. Calmo, muito calmo. Apenas uma mesa ocupada por dois casais e eu dividimos a atenção dos garçons. Ou melhor, nós e o Crô, de Fina Estampa, que enquanto escolho o que vou pedir para a janta aconselha o colega de trabalho a se acalmar após flagrar a filha na cama com o namorado... Escolha feita, me entretenho lendo "Mil dias em Veneza", numa espécie de auto-preparação para a viagem que me aguarda em abril. Sorvo algumas páginas seguidas de goles de Carta Vieja 2011. Os vinhos brasileiros que me perdoem, mas a alma chilena dos cabernets me atraem de uma forma quase magnética: não resisto a eles (os vinhos, não os chilenos... hehehe). O garçon me faz sair do meu quase "autismo" quando coloca em minha frente uma tigela de sopa de cappelleti fumegante. Generosas porções de queijo ralado há pouco (não, não é queijo parmesão, mas tem um perfume e sabor agradáveis) e a sopa quentinha desce por minha garganta lembrando noites de jantares em família e entre amigos. Venho de uma família brasileira legítima por onde passam gens de negros, índios, espanhóis e italianos. Mas entre esta mistura genética os gens italianos parecem querer gritar mais forte (o que explica a pele "ruim para o sol" e meus olhos que oscilam entre o azul e o verde). Cresci em uma família grande, formada por muitos tios e primos, que sempre associou os eventos familiares a grandes comilanças em grupo. Em uma família onde ser gordinho é uma espécie de sinônimo de ser alegre e saudável (o que nem sempre corresponde à realidade), e onde preparar a comida em conjunto e dividir a mesa uns com os outros significa compartilhar histórias, trocar "confissões de cozinha", enfim, reforçar os laços que nos unem como família. Termino minha tigela de sopa e volto a mais algumas páginas de Veneza e mais alguns goles do chileno que me acompanha. Volto ao meu "quase autismo", interrompido apenas para um breve bisbilhotar quanto ao interesse dos garços pelo jogo de futebol que começa. O jogo não me interessa, volto a Veneza. Quando já estou me mudando para a Toscana com Marlena e o seu estranho, o garçon me traz de volta e deposita em minha frente dois espetinhos de carne mal-passada, temperada com adobo e intercalada com cebola, pimentão e bacon. O perfume do tempero e da carne me trazem de volta ao corpo e despertam minhas glândulas salivares e meu estômago. Sou carnívora. Inegável e organicamente carnívora. Há alguns anos tentei parar de comer carne, pois concordo que há algo de hipócrita em alguém que trabalha com conservação de fauna silvestre e defende o bem estar animal salivar ao olhar um cordeirinho saltitante no campo... Minha dieta vegetariana durou pouco mais de uma semana. E cheguei à conclusão de que sou organicamente dependente de carne vermelha, pois no meio da semana seguinte sem ela eu estava tão irritada sem motivo algum que poderia bater em alguém. Um bife suculento aplacou minha fúria. Tento novamente na próxima encarnação. Agora apenas eu e os garçons estamos no salão do La Leña. E o meu adorável chileno. E minha deliciosa carne suculenta. O garçon se aproxima e pergunta se quero que ele peça ao cozinheiro que passe mais a carne sangrenta. Heresia! Está majestosamente no ponto. No meu ponto. Assada por fora e quase crua por dentro, guardando todo o seu suco e sem ter seu sabor e textura alterados pelo cozimento. Termino a carne, mas não a janta. O garçon pergunta se desejo uma sobremesa. Digo que ainda não. E somos novamente nós três: o chileno, Veneza e eu. Termino meu livro. É hora da sobremesa. Peço um Creme Brullè e o garçon me surpreende ao trazer um mini-maçarico e caramelizar a porção de açúcar no topo da taça bem ali na minha frente. A chama azul promovendo a metamorfose dos grãos brancos do açúcar no dourado da calda de caramelo, o cheiro maravilhoso e doce... Sou uma glutona convicta. Não há como negar. Me delicio com o Creme e em encontrar os pedaços crocantes de caramelo mergulhados dentro dele. Por fim, sorvo os últimos goles do chileno. È finita la cena! Terminou o jantar! Peço a conta e enquanto a espero, chamo meu fiel escudeiro. O taxista chega. Dou um tchau com um olhar agradecido ao garçon e entro no táxi. Algumas conversas, algumas risadas, algumas quadras e estou na porta de meu prédio. Já no elevador, me pego pensando em quantas pessoas perdem o prazer de um bom jantar por não terem "companhia". Fico agradecida por, há décadas, ter aprendido a apreciar minha própria companhia. E por ter aprendido a ser uma companhia agradável e leve para mim mesma.
Assinar:
Postagens (Atom)